Vacinação
contra o HPV e justiça reprodutiva no Brasil: desafios de gênero, desinformação
e estratégias para ampliar a cobertura
HPV
vaccination and reproductive justice in Brazil: gender challenges,
misinformation and strategies to expand coverage
Joice
Graciele Nielsson[1]
Júlia
de Oliveira Mariano[2]
DOI:
https://doi.org/10.37767/2591-3476(2025)59
Fecha de envío: 31.10.2025
Fecha de aceptación: 10.12.2025
Resumo
O
artigo analisa a baixa adesão à vacinação contra o papilomavírus humano (HPV)
no Brasil, apesar de sua eficácia e oferta gratuita, objetivando compreender este cenário e propor
estratégias para ampliar a cobertura vacinal. O problema questiona quais
fatores sociais, culturais e institucionais configuram um cenário de não
efetivação da justiça reprodutiva, contribuindo para essa resistência e a
hipótese é que a recusa esteja relacionada à desinformação, a crenças e valores
culturais permeados por desigualdades de gênero e a falhas na articulação entre
saúde e educação. A metodologia é qualitativa, exploratória e analítica,
baseada em análise documental e revisão bibliográfica crítica de materiais
institucionais e literatura acadêmica, com uso da análise de conteúdo. O estudo
identifica o problema de não efetivação da justiça reprodutiva a partir de
discursos moralizantes de gênero sobre a sexualidade feminina reforçando
barreiras à imunização, associando a vacina a suposto incentivo à vida sexual
precoce.
Palavras-chave:
direitos humanos; vacinação para HPV; saúde pública; gênero; desinformação.
Abstract
The
article analyzes the low adherence to vaccination against human papillomavirus
(HPV) in Brazil, despite its effectiveness and free provision, aiming to
understand this scenario and propose strategies to expand vaccination coverage.
The problem questions which social, cultural and institutional factors
configure a scenario of non-implementation of reproductive justice,
contributing to this resistance and the hypothesis is that the refusal is
related to misinformation, beliefs and cultural values permeated
by gender inequalities and failures in the articulation between health and
education. The methodology is qualitative, exploratory and analytical, based on
documentary analysis and critical bibliographic review of institutional
materials and academic literature, using content analysis. The study identifies
the problem of non-implementation of reproductive justice based on moralizing
gender discourses about female sexuality, reinforcing barriers to immunization,
associating the vaccine with supposed encouragement of early sexual life.
Keywords:
human rights; HPV vaccination; public health; gender; disinformation.
Resumen
El
artículo analiza la baja adherencia a la vacunación contra el virus del
papiloma humano (VPH) en Brasil, a pesar de su efectividad y gratuidad, con el
objetivo de comprender este escenario y proponer estrategias para ampliar la
cobertura de vacunación. El problema cuestiona qué factores sociales,
culturales e institucionales configuran un escenario de no implementación de la
justicia reproductiva, contribuyendo a esta
resistencia y la hipótesis es que la negativa está relacionada con
desinformación, creencias y valores culturales permeados por desigualdades de
género y fallas en la articulación entre salud y educación. La metodología es
cualitativa, exploratoria y analítica, basada en el análisis documental y la
revisión bibliográfica crítica de materiales institucionales y literatura
académica, utilizando el análisis de contenido. El estudio identifica el
problema de la no implementación de la justicia reproductiva basada en
discursos moralizantes de género sobre la sexualidad femenina, reforzando las
barreras a la inmunización, asociando la vacuna con un supuesto estímulo a la
vida sexual temprana.
Palabras
clave: derechos humanos; vacunación contra el VPH; salud pública; género;
desinformación.
I.
Introdução
A
saúde da população passou a ser objeto de preocupação do Estado no século
XVIII, período em que o Estado absolutista assumiu a responsabilidade pela
saúde por meio de políticas sanitárias. Nesse contexto, a saúde começou a ser
reconhecida como um direito do cidadão, especialmente após a Revolução
Americana, em 1776 e a Revolução Francesa, em 1789.
No
Brasil, essa preocupação se intensificou no século XIX, com a chegada da
Família Real, em 1808, e as transformações provocadas pela Revolução
industrial, que estimularam a urbanização principalmente na região Sudeste.
Nesse período, ocorreram as primeiras experiências de vacinação no país. Já no
século XX, o fortalecimento da saúde pública e a criação dos Institutos Oswaldo
Cruz e Butantan impulsionaram a produção nacional de imunobiológicos,
viabilizando campanhas de vacinação em larga escala.
Entretanto,
foi a criação do Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde
(MS), em 1973, que consolidou as políticas públicas de vacinação no país. O PNI
é responsável por controlar, erradicar e eliminar doenças infectocontagiosas e
imunopreveníveis e, entre os países em desenvolvimento, é considerado um dos
mais completos, sendo pioneiro na implementação de algumas vacinas e
demonstrando alta capacidade técnica e organizacional na área de imunização.
Entre
as vacinas ofertadas pelo PNI está a vacina contra o papilomavirus humano
(HPV), considerada a infecção sexualmente
transmissível de maior incidência no mundo e associada à maioria dos casos de
câncer do colo do útero. A vacinação é reconhecida como uma das estratégias
mais eficazes na prevenção dessa e de outras doenças, especialmente quando
aplicada antes do início da vida sexual. Apesar da ampla disponibilidade da
vacina pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e das evidências científicas que
atestam sua eficácia, seus níveis de cobertura vacinal ainda estão abaixo do
recomendado. Nesse contexto, o presente artigo tem como objetivo analisar os
fatores sociais, culturais e institucionais que influenciam a recusa à
vacinação contra o HPV no Brasil, à luz das políticas públicas de saúde, das
construções de gênero e das estratégias comunicacionais adotadas.
Para
tanto, o problema de pesquisa reside em responder quais fatores contribuem para
a baixa adesão à vacinação contra o HPV no Brasil, mesmo diante da sua eficácia
comprovada e da oferta gratuita pelo SUS. Como hipótese inicial, propõe-se que
essa baixa adesão decorre principalmente da desinformação, de crenças e valores
culturais associados a desigualdade de gênero e de falhas na articulação entre
campanhas de saúde e educação, sendo possível revertê-la por meio de
estratégias de comunicação, com participação das escolas, da comunidade e dos
órgãos de saúde.
A presente
pesquisa adota uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório e analítico,
fundamentada na análise documental e bibliográfica. Essa escolha metodológica
se justifica pela necessidade de compreender os sentidos sociais, culturais e
institucionais atribuídos à vacinação contra o HPV no Brasil, especialmente
diante da ausência, neste momento, de condições para a realização de
entrevistas ou trabalho de campo. A pesquisa busca interpretar discursos e
representações que circulam nos materiais produzidos por órgãos públicos, bem
como refletir sobre as construções simbólicas associadas à saúde, à sexualidade
e ao gênero, aspectos centrais para a análise da baixa
adesão à vacina.
Nesse
contexto, a pesquisa documental concentra-se na análise de fontes institucionais
como campanhas de comunicação do Ministério da Saúde, diretrizes do PNI,
portarias, protocolos e publicações oficiais disponíveis em plataformas
governamentais. Paralelamente, realiza-se uma revisão bibliográfica crítica de
literatura acadêmica nacional e internacional sobre políticas públicas de
vacinação, saúde pública, comunicação em saúde, representações sociais e
estudos de gênero. A articulação entre essas duas
fontes permite não apenas contextualizar o problema de pesquisa, mas também
identificar lacunas, tensões e contradições nos discursos oficiais e nas
interpretações teóricas existentes.
Como
técnica de análise, utiliza-se a análise de conteúdo,
segundo a perspectiva de Laurence Bardin, aplicada tanto aos documentos
institucionais quanto aos textos acadêmicos selecionados. Essa técnica permite
a categorização e interpretação sistemática dos dados, facilitando a identificação de padrões discursivos, temas recorrentes e
construções simbólicas presentes nos materiais analisados. A partir dessa
estratégia, a pesquisa busca oferecer uma leitura crítica das narrativas sobre
a vacinação contra o HPV, destacando os fatores históricos, culturais e de
gênero que podem influenciar a adesão vacinal, e
propondo caminhos para qualificar as estratégias de comunicação e mobilização
social em saúde.
Para
tanto, o artigo está dividido em três seções. A primeira seção aborda o
histórico das políticas de vacinação no Brasil e a construção das políticas de
imunização. A segunda seção, aborda o contexto epidemiológico do HPV e discute
os principais fatores que afetam a adesão à vacina,
com destaque para questões de gênero e desinformação. A terceira seção propõe
estratégias de intervenção para ampliar a cobertura vacinal. Por fim, na
conclusão, é apresentada uma síntese dos resultados e recomendações para
futuras políticas públicas.
II.
Evolução histórica da vacinação no Brasil e a construção das políticas de
imunização
A
primeira evidência do uso de vacinas surgiu na China, no século X, contra a
varíola. No entanto, o método utilizado à época era totalmente distinto do que
conhecemos hoje. Os cientistas transformavam as cascas das feridas de varíola
em um pó que continha o vírus inativado e o aplicavam nos ferimentos de
indivíduos já contaminados. Essa técnica ficou conhecida como variolação
(Dande, Júnior e Martinez, 2022).
O
termo vacina advém do latim vaccinae, que significa “da vaca”, em razão da
doença variolae vaccinae, cujo significado é “varíola das vacas”. A utilização
desse termo se deu porque o líquido retirado da vesícula das vacas foi
utilizado para a criação das primeiras vacinas (Menezes et al., 2022). A
literatura aponta que o médico inglês Edward Jenner foi quem inventou a
primeira vacina em 1798 contra varíola. Já no século XIX, Louis Pasteur
desenvolveu a vacina contra a raiva (Reis, 2018).
No
Brasil, a chegada da Família Real, em 1808, impulsionou o desenvolvimento
econômico e político do Rio de Janeiro. Contudo, conforme relata Reis (2018, p.
24) “eram precárias as condições de higiene da população à época, aliada à
susceptibilidade imunológica, péssimas condições de saneamento básico e intenso
tráfego de pessoas devido à zona portuária”. Esse cenário favoreceu a eclosão de epidemias de febre amarela, tuberculose e
malária. Nesse contexto, em 1832, a vacinação passou a ser obrigatória no
município do Rio de Janeiro, por meio da lei conhecida como “Código de
Posturas”, que previa multa a quem não se vacinasse. Apesar da sanção, a adesão foi baixa, devido à desconfiança sobre a eficácia
das vacinas e ao medo de se imunizar (Menezes et al., 2022).
Anos
depois, visando controlar o número de casos de doenças e difundir a cultura de
vacinação, em 1846 a imunização tornou-se obrigatória
em todo o Brasil, por meio do Decreto Imperial nº 464 (Silva et al., 2021). No
estado de São Paulo, a vacinação tornou-se compulsória em 1891, e no Rio de
Janeiro, em 1901 (Dande, Júnior e Martinez, 2022).
O
crescimento de grandes centros urbanos a partir do século XIX, impactou
negativamente a infraestrutura das cidades e, por
consequência, a saúde pública. No final do século XIX
e início do século XX, a cidade do Rio de Janeiro experimentou um rápido
crescimento populacional impulsionado pelo avanço industrial, transformando-se
em um importante polo econômico (Wermuth, Nielsson, Tertuliano, 2021).
Naquele
período, a zona portuária do Rio de Janeiro registrava intenso tráfego de
pessoas. Esse aumento populacional, somado a um sistema
viário precário herdado do período colonial, que dificultava o escoamento do
café e à ocorrência de epidemias, levou o Brasil a sofrer pressão internacional
para adotar medidas capazes de minimizar esses problemas. As epidemias também
afastavam o interesse dos imigrantes, mão-de-obra fundamental após a abolição da escravatura em 1888. Assim, o governo passou a adotar uma série de medidas para conter surtos de peste
bubônica, febre amarela e varíola, que assolavam a população e desestimulavam a
imigração (Moutinho, 2020).
Nesse
cenário, Rodrigues Alves assumiu a presidência da república em 1902 e nomeou
Pereira Passos como prefeito da cidade do Rio de Janeiro, com o compromisso de
realizar reformas de saneamento na cidade e melhorar seu porto, pois:
[...]
na época em que a mesma era conhecida como o “túmulo dos estrangeiros” tamanha
era a quantidade de pessoas que morriam por causa das epidemias. A cidade era
tão temida que as agências de viagem anunciavam como uma vantagem aos
passageiros quando os navios faziam viagens diretamente para Buenos Aires sem
passar pelo Rio de Janeiro (Moutinho, 2020: 3).
Visando
consolidar o projeto de urbanização e saneamento, Rodrigues Alves elaborou o
Decreto nº 5.156, de 8 de março de 1904, conhecido como “código de torturas”,
por seu teor arbitrário (Silva et al., 2021). Esse decreto regulamentava a atuação das polícias sanitárias nos domicílios, a
interdição e desocupação de prédios, bem como a demolição de casas e de
cortiços, sob alegação sanitária. Contudo, tais medidas marginalizaram a
população pobre e deram início à formação das favelas (Nogueira et al., 2021).
Conforme já mencionado, o surto populacional e a precariedade sanitária foram
fatores determinantes para o aumento de doenças, como é o caso da varíola. E é
nesse momento que a figura de Oswaldo Cruz surge no cenário nacional (Nogueira,
et al., 2021).
Oswaldo
Cruz foi um médico sanitarista brasileiro considerado pioneiro da saúde pública
no país e responsável pela consolidação da ciência no Brasil, sendo um dos
principais nomes ligados à criação dos Institutos Soroterápicos em São Paulo e
no Rio de Janeiro (Scliar, 2005). Silva et al. (2021) ressaltam que o primeiro
grande feito do sanitarista ocorreu em 1899, quando realizou estudos no Porto
de Santos para investigar casos de peste. Após a confirmação da doença, o
governo brasileiro decidiu fabricar soros no país, diante da baixa eficácia dos
produtos importados e da dependência da Europa.
A
fundação do Instituto Serumtherápico de Manguinhos (atual Instituto Oswaldo
Cruz/Fiocruz) e do Instituto Serumtherápico do Estado de São Paulo (atual
Instituto Butantan), foi decisiva para a autonomia
sanitária do país, permitindo a produção própria de vacinas e respostas rápidas
a emergências. Além disso, essas instituições estruturaram cadeias de pesquisa,
fabricação e controle de qualidade, formaram quadros técnicos e deram resposta
rápida a emergências (da peste e febre amarela às
campanhas de imunização do calendário atual). O legado de Fiocruz e Butantan
sustenta até hoje a capacidade brasileira de incorporar novas vacinas ao PNI e
de conduzir campanhas de grande porte com produção nacional.
Conforme
Scliar (2005), no combate à peste bubônica, febre amarela e varíola, Oswaldo
Cruz implementou medidas de extermínio dos vetores, como mosquitos e ratos,
além de instituir a obrigatoriedade da vacinação
contra a varíola. O autor ressalta ainda que para que uma pessoa conseguir
emprego era necessário um atestado de vacinação, o qual era fornecido por
médicos particulares, que cobraram por esse atestado. Já Nogueira et al. (2021)
destacam que essa obrigatoriedade estava associada a diversas exigências
sociais, como a apresentação do comprovante de
vacinação para casar, viajar, hospedar-se, matricular-se em escolas e até mesmo
para ingressar no mercado de trabalho.
A obrigatoriedade da vacina e
suas sanções causaram revolta na população, influenciados pelos positivistas
que viam na obrigatoriedade uma afronta a liberdade individual ou nas palavras
de Teixeira Mendes “um despotismo sanitário” (Scliar, 2005). A resistência da
população também estava relacionada a boatos sobre os componentes da vacina e o
receio de efeitos colaterais e, no caso das mulheres, pelo pudor em expor
partes do corpo durante a aplicação (Moutinho, 2020).
Avançando na tentativa de imunizar a população, em 31 de outubro de 1904 o
Congresso brasileiro aprovou a lei que tornava obrigatória a vacinação. A
partir daí “as brigadas sanitárias foram autorizadas a
entrar nas casas e vacinar as pessoas à força” (Menezes et al., 2022: 8).
Diante
da resistência da população às medidas sanitárias impostas por Oswaldo Cruz e
posteriormente pela aprovação da supracitada lei, no dia 10 de novembro de 1904
eclodiu um dos maiores movimentos populares no Brasil, conhecida como Revolta
da Vacina. Durante cerca de uma semana, a cidade viveu um cenário de guerra,
onde os manifestantes ergueram barricadas, atacaram bondes, edifícios públicos
e enfrentaram as tropas do governo. O conflito deixou um número indeterminado
de mortos e feridos, sendo que dezenas de prisioneiros foram deportados para
regiões distantes (Scliar, 2005).
No
entanto, a revolta não ocorreu apenas como resposta a
imposição da vacina, as pessoas que haviam sido expulsas do centro do Rio de
Janeiro já estavam descontentes com o governo, e se vendo diante da vacinação
compulsória se rebelaram. Além disso “a campanha de vacinação ser um projeto
diretamente ligado à presidência da República, e de sua responsabilidade, a oposição política ao governo utilizou-se da situação como
meio de se rebelar contra Rodrigues Alves (Nogueira et al., 2021: 3). Nesse
mesmo sentido:
[...]
estudiosos do movimento destacam a utilização da revolta popular como um
pretexto – utilizado principalmente pelos monarquistas e apoiadores de Floriano
Peixoto - para fazer oposição ao governo de Rodrigues Alves (Presidente à
época) e oportunizar um golpe. Além da perspectiva política utilizada, também
são expostas questões que envolvem a moralidade e o contexto socioeconômico da época
(Reis, 2018: 25).
Em
razão do conflito, o governo suspendeu temporariamente a
obrigatoriedade, o que levou a um novo surto de febre amarela, com mais de 10
mil casos em 1908 (Scliar, 2005).
A
revolta revelou a necessidade de educação em saúde pública e de um diálogo mais
democrático entre Estado e população, pois embora o discurso adotado a época
fosse de realizar uma modernização no Rio de Janeiro, por meio de saneamento
básico e melhores condições de moradia e saúde da população, na prática o que se
constatou foi uma atitude autoritária higienista, à medida que milhares de
pessoas foram despejadas de suas casas, resultando em uma marginalização em
locais periféricos (Reis, 2018).
Décadas
depois, em 1973, foi criado o Programa Nacional de Imunizações (PNI), política
pública de saúde voltado ao controle, eliminação ou erradicação de doenças
imunopreveníveis, por meio de estratégias de vacinação descentralizadas. Graças
ao PNI, a varíola foi erradicada na década de 1970, a poliomielite eliminada
das Américas nos anos 1980 e o sarampo controlado.
No
início, o calendário vacinal incluía apenas quatro vacinas; atualmente
disponibiliza 47 imunobiológicos para todas as faixas etárias (Brasil, 2005).
Dentre as vacinas disponibilizadas pelo PNI está a vacina contra o papilomavirus
humano (HPV), uma das infecções sexualmente transmissíveis mais frequentes no
mundo. Contudo, apesar das graves consequências causadas pelo HPV, como o
câncer de colo de útero, ainda há resistência de famílias em vacinar as meninas
contra o vírus, sendo que os motivos para esse negacionismo serão abordados na
seção seguinte.
III.
Vacina contra o HPV e os desafios de gênero na adesão vacinal
A infecção pelo papilomavirus
(HPV) atinge principalmente mulheres sexualmente ativas. A contaminação por
esse vírus possui íntima relação com o câncer de colo de útero, quarto tipo de
câncer mais comum entre as mulheres no mundo. Além do câncer de colo do útero,
o HPV está associado a cânceres da cavidade oral, da orofaringe e anorretal,
bem como lesões benignas, como as verrugas genitais. Sendo que o método mais
eficaz para prevenir esse vírus é a vacinação (Santiago et al., 2021). Embora
não altere o curso de uma doença já instalada, a vacina contra o HPV apresenta
eficácia de aproximadamente 98% na prevenção contra os principais tipos virais,
quando administrada antes do início da vida sexual dos adolescentes, momento em
que há maiores chances de se obter uma boa resposta imunológica (Santiago et al.,
2021).
O
primeiro país a disponibilizar gratuitamente a vacina foi a
Austrália em 2006, priorizando o público feminino de 12 a 26 anos e alcançando
cerca de 70% de cobertura vacinal (Carvalho, 2019). No Brasil, o PNI introduziu
a vacina contra o HPV em 2014, inicialmente para meninas de 11 a 13 anos. Em
2015, a faixa etária foi ampliada para meninas de 09 a 13 anos e, em 2017, para
09 a 15 anos. Contudo, as metas estabelecidas para cobertura vacinal,
especialmente em relação à segunda dose, não foram atingidas. Em 2014, por
exemplo, 87% dos municípios brasileiros alcançaram a meta na primeira dose, mas
apenas 32% deles atingiram a meta na segunda (Moura; Codeço; Luz, 2021).
Vieira
(2022) observa que a análise estatal sobre a não
adesão vacinal costuma ser meramente numérica, sem considerar fatores sociais e
condições materiais da população:
Na
prática, há muitas formas de recusar a vacina – elas podem ser apresentadas
pelas justificativas mais discutidas (como movimento antivacina e negacionismo
contemporâneo) até dimensões menos apontadas (como inacessibilidade territorial
ou desinformação) (Vieira, 2022: 54).
De
acordo com Carvalho (2019), a baixa cobertura vacinal se agrava quando a eficácia da vacina exige mais de uma dose ou reforço, como
no caso da vacina contra o HPV. Já Moura, Codeço e Luz (2021: 03), apontam
fatores como “o baixo nível educacional, baixa renda, residência em zona rural,
baixo acesso à informação e aos serviços de saúde e barreiras interpostas por
dogmas religiosos”. Os autores destacam ainda que:
A
mídia social tem importante papel na disseminação das informações e é uma das
maneiras de divulgar recomendações de saúde. Mas destaca-se que a falta de
informações e/ou as informações falsas sobre a vacina HPV ampliam a dificuldade
de adesão a vacinação (Moura, Codeço, Luz, 2021: 03).
A
desinformação causa impactos ainda mais significativos quando o público-alvo é
formado por crianças e adolescentes, pois “na ausência de conhecimento
apropriado, alguns responsáveis legais não vacinam em função do medo do evento
adverso pós-vacinação, o que prejudica as coberturas vacinais” (Carvalho, 2019:
62).
Vasques-Ferreira
e Varão (2021) mostram como essas informações falsas se articulam com valores
morais e crenças religiosas, gerando medo e desconfiança em relação às
políticas públicas de saúde. Entre os boatos mais comuns sobre a vacina do HPV,
destacam-se alegações de que ela poderia causar infertilidade, doenças
neurológicas ou incentivar comportamentos sexuais considerados imorais. Essa
desinformação compromete diretamente os esforços de prevenção, colocando em
risco a saúde pública e a vida de milhares de adolescentes.
Reconhecendo
o papel central da comunicação, o Ministério da Saúde criou, em 2018, o canal
“Saúde sem Fake News” para receber denúncias e esclarecer dúvidas sobre temas
de saúde públicas (Vasques-Ferreira; Varão, 2021). Contudo, o canal foi
desativado em 2021 por não conseguir atender à enorme demanda de mensagens.
Segundo
Melo et al. (2025), a resistência à vacina se intensificou durante a pandemia
de COVID-19, período em que houve massiva disseminação de notícias falsas sobre
eficácia e os efeitos colaterais da vacina. Corroborando com esse entendimento,
Wermuth, Nielsson e Tertuliano (2021), apontam que, durante a pandemia, as fake
news passaram a ser usadas como instrumento de desinformação, agravando o
descrédito na ciência e no conhecimento formal no país.
Embora
o temor pelos efeitos colaterais seja um dos principais motivos alegados por
famílias e jovens para resistirem à vacinação contra o HPV, questões de gênero
também exercem papel determinantes para essa decisão. Carvalho (2019), observa
que desde a introdução da vacina, uma preocupação
recorrente entre famílias é a possibilidade de mudança no comportamento sexual
das meninas vacinadas, sob a crença de que poderiam se sentir incentivadas a
iniciar a vida sexual mais cedo.
Essa
resistência reflete construções tradicionais de gênero, que associam a
sexualidade feminina à vulnerabilidade moral e à necessidade de controle
familiar. Para Vieira (2022), a controvérsia inicial sobre a vacina decorreu,
em parte, do fato de ela ter sido inicialmente direcionada apenas ao sexo
feminino, o que remetia à ideia de as meninas poderiam já estar sexualmente
ativas ou prestes a isso, necessitando de maior
proteção. Tal visão reforça a desigualdade de gênero e estereótipos sobre
sexualidade feminina. Nessa mesma perspectiva, Reis (2018), aponta que:
A
meu ver, a campanha de imunização contra o HPV para crianças e adolescentes –
inicialmente voltada exclusivamente para o público feminino - reproduz e
reafirma a capacidade de controle desses corpos por instituições
governamentais, que legalizam, instrumentalizam e respaldam esse manejo do
corpo feminino. A mensagem passada é que a responsabilidade pela saúde sexual
da população está necessariamente associada às mulheres e não aos homens (Reis,
2018,: 46).
A associação entre vacinação e
permissividade sexual não possui sustentação científica, mas carrega grande
peso simbólico nas decisões parentais. Historicamente, o corpo da mulher tem
sido alvo de controle social. Michelle Perrot (1998) lembra que, na Idade
Média, os corpos femininos não lhes pertenciam; no âmbito conjugal, estavam sob
domínio do marido, refletindo a ordem patriarcal.
Na
mesma linha, Federici (2017: 307) acrescenta que as caças às bruxas, a partir
do século XV, estiveram ligadas a uma nova ordem patriarcal, na qual “os corpos
das mulheres, seu trabalho, seus poderes sexuais e reprodutivos foram colocados
sob o controle do Estado e transformados em recursos econômico”. A autora adverte ainda que, na sociedade capitalista o corpo
das mulheres é o principal terreno de sua exploração e resistência sendo
forçado pelo estado e pelos homens “a funcionar como um meio para a reprodução
e a acumulação de trabalho. Neste sentido, é bem merecida a
importância que adquiriu o corpo, em todos os seus aspectos — maternidade,
parto, sexualidade” (Federici, 2017: 307).
Partindo
dessa premissa, o útero assume uma função simbólica e utilitarista que
condiciona à mulher a sua capacidade reprodutiva. Por essa razão “políticas
higienistas, controlistas e populacionais se interessam, vigorosamente, pelo
corpo da mulher” (Vieira, 2022, p. 23). Na mesma linha, Nielsson (2020) afirma
que, no contexto latino-americano e brasileiro, o debate sobre os direitos
sexuais e reprodutivos tem ganhado relevância, sendo o sexo controlado pelo
Estado com o objetivo de reprodução, configurando-se em moldes heteronormativos
e legitimados pelo matrimônio. Para a autora, “o que
se vislumbra é um continuum na tentativa biopatriarcalista de controlar o poder
reprodutivo das mulheres, e com isso, de seus corpos, amplamente vinculado ao
projeto biopolítico de controle das massas” (Nielsson, 2020: 10). Sob a mesma
ótica, Segato (2014) destaca que o corpo feminino se amolda perfeitamente à
ideia de biopoder, pois é constantemente investido de significados territoriais
e reprodutivos.
É
neste contexto que a abordagem das implicações de gênero na baixa cobertura
vacinal contra o HPV pode ser pensada, para além de uma questão de saúde
reprodutiva, a partir do paradigma da justiça reprodutiva, “uma perspectiva
teórica capaz de dar suporte à interseccionalidade necessária para análise da
vivência dos direitos reprodutivos e da garantia do acesso à saúde sexual e
reprodutiva” (Nielsson, 2025, p. 10), levando-se em consideração os contextos
sociais e desigualdades estruturais que permeiam escolhas reprodutivas
individuais. A justiça reprodutiva enfrenta como os diferentes regimes de
opressão impactam a saúde sexual e reprodutiva e prioriza a
organização coletiva para demandar direitos e políticas fundamentais ao
exercício livre e autônomo da sexualidade (Ross, 2006).
Nessa perspectiva, a ideia de justiça é bem mais ampla que a de direito, pela
inclusão das intersecções ou imbricações sociais de meninas e mulheres em suas
inúmeras diversidades. Dessa forma, a Justiça Reprodutiva refere-se aos
recursos econômicos, sociais e políticos para que as mulheres possam tomar
decisões saudáveis sobre os seus corpos, suas sexualidades e suas reproduções,
não de uma maneira apenas individual, mas levando em conta suas famílias,
comunidades e a estrutura social (opressiva sob
diferentes aspectos) em que estão inseridas (Asian Communities For Reproductive
Justice, 2005).
Nesse
contexto, uma vez considerando-se a baixa cobertura vacinal a partir da ótica
da justiça reprodutiva, é imprescindível que o Estado brasileiro elabore
estratégias articuladas para enfrentar o negacionismo vacinal, potencializado
pela disseminação de desinformação, bem como para formular políticas públicas
voltadas à desconstrução da ordem patriarcal que ainda influencia as relações
de gênero, permeadas ainda por outras formas de desigualdades estruturais, como
desigualdade racial, de classe e de sexualidade. Tal temática será aprofundada
na seção seguinte.
IV
Estratégias e políticas para ampliar a cobertura vacinal contra o HPV
Desde
o surgimento das vacinas, sempre houve desconfiança quanto à sua eficácia, em
grande parte devido ao desconhecimento da população, que gera temor
principalmente em relação aos efeitos colaterais, cenário que pôde ser
constatado durante a pandemia de COVID-19. Além disso, o entendimento sobre
questões de saúde pública é, muitas vezes, utilizado como um campo de
manipulação social por elites (Reis, 2018).
No
Brasil, após a institucionalização do Programa
Nacional de Imunização (PNI), a forma como a população passou a encarar a
vacina começou a mudar. Graças a estratégias
bem-sucedidas doenças foram erradicadas no país. Um exemplo marcante foi a
campanha de vacinação contra a poliomielite, realizada na década de 1980, que
contou com a criação do personagem Zé Gotinha para sensibilizar o público
infantil (Koehler e Santos, 2017). Visando ampliar a cobertura vacinal, além
das campanhas de vacinação, outras estratégias também podem ser utilizadas,
considerando as características do território e da população. Entre as
estratégicas básicas de vacinação estão: a vacinação de rotina realizada na
unidade de saúde, vacinação de bloqueio e vacinação extramuros (Koehler e
Santos, 2017).
Em
relação à vacina contra o HPV, as campanhas de vacinação se mostram como a estratégia mais eficaz, uma vez que ações de intensa
mobilização da comunidade, principalmente por meio de veículos de comunicação
de massa e da ampliação do número de postos, permitem maior acesso da população
à imunização. Uma medida que poderia ser novamente adotada é a vacinação contra
o HPV nas escolas. No primeiro ano de implantação da vacina, a primeira dose
foi ministrada em escolas públicas e privadas, alcançando cobertura próxima a
100%. Entretanto, a segunda dose, aplicada nas unidades de saúde, teve adesão
de cerca de 62,29% da população (Reis, 2018).
Conforme
relatado anteriormente, os veículos de comunicação desempenham papel crucial na
divulgação de campanhas de saúde. Um estudo realizado em 2014 apontou que,
naquela época, a televisão possuía maior eficácia no compartilhamento de
informações e na adesão da população a essas campanhas
(Carvalho, 2019).
Atualmente,
além de rádio e TV, as mídias digitais são fundamentais para disseminar
informações a milhares de pessoas em poucos segundos. Nesse sentido, torna-se
essencial utilizar essas ferramentas para a veicular mais informações sobre as
vacinas, esclarecendo sua segurança e eficácia à população. Mais do que isso, é
preciso conscientizar a população sobre a proteção da saúde coletiva. Como observa
Reis (2018, p. 34) “hoje, especialmente entre indivíduos com perfil
socioeconômico mais elevado, é possível identificar um crescente
individualismo, expresso através da exigência por autonomia e liberdade de
escolha”. Esse modelo propõe que os pais tenham liberdade no cuidado com os
filhos, assumindo a responsabilidade pelos riscos decorrentes da não vacinação.
No
caso da vacina contra HPV, Carvalho (2019) argumenta que, a comprovação de sua
eficácia se dá por meio de pesquisas científicas que, em geral, são divulgadas
apenas no meio clínico e acadêmico. Para que haja maior disseminação dessas
informações, tais estudos devem ser traduzidos para uma linguagem mais
acessível à população em geral, especialmente considerando seus contextos
sociais e desigualdades estruturais nas quais estão inseridas.
Ademais,
é essencial, através do paradigma da justiça reprodutiva, que as campanhas
realizadas pela mídia foquem nas questões de gênero, desconstruindo a associação entre vacina e sexualidade precoce. Uma alternativa
é a utilização de figuras femininas (médicas, pesquisadoras, influenciadoras)
que transmitam a importância da imunização e reforcem
o empoderamento feminino.
A
sexualidade na adolescência ainda é um tabu em diversos contextos familiares.
Nesse cenário, as escolas exercem papel central na educação em sexualidade e
saúde pública. Palestras com profissionais de saúde e campanhas de
conscientização podem atingir grande número de jovens em idade escolar e
promover a prevenção, o diagnóstico e o tratamento contra o HPV. Além disso, é
importante inserir conteúdos de educação em sexualidade nos currículos
escolares, abordando a prevenção do câncer de colo de útero e os direitos
sexuais.
Nesse
sentido, Reis (2018) adverte que, embora vacinação contra o HPV tenha sido
pensada para ocorrer nas escolas, não houve uma articulação efetiva entre
unidades de saúde e instituições de ensino para promover a
educação sexual destinada a jovens da faixa etária-alvo das campanhas
ministeriais. A capacitação dos profissionais da rede de ensino para abordar o
tema de forma adequada ainda é incipiente.
Dados
do Ministério da Saúde indicam que, entre 2022 e 2023, as doses aplicadas da
vacina HPV aumentaram 42%. No público feminino, o aumento foi de 16%, enquanto
no masculino chegou a 70%. Segundo o diretor do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da
Saúde, Eder Gatti, esses avanços são resultados dos programas de vacinação nas
escolas, pois muitos meninos e meninas não vão às unidades de saúde. Por isso,
torna-se necessário fortalecer a vacinação no ambiente escolar (Brasil, 2024).
Em
2024, a cobertura da primeira dose da vacina contra o HPV no Brasil alcançou
cerca de 82,3 % entre meninas e 66,7 % entre meninos na faixa
etária de 9 a 14 anos, conforme reportado pelo Instituto Butantan, embora a
meta definida pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) seja de 90 % da
população elegível (Butantan, 2025). Visando reforçar a
estratégia de vacinação contra HPV, em março de 2025 o Ministério da Saúde
promoveu um webinário com o objetivo de mobilizar estados e municípios para
vacinar jovens de 15 a 19 anos. Uma das medidas anunciadas foi a introdução da vacina contra o HPV em dose única no Brasil,
conforme a Nota Técnica nº 41 de 2024 do Ministério da Saúde. Assim, em abril
de 2025, o SUS passou a disponibilizar a dose única da vacina para jovens de 9
a 19 anos, como parte de uma estratégia para resgatar adolescentes que ainda
não haviam sido vacinados (Brasil, 2025).
A adoção do esquema de dose
única da vacina contra o papilomavírus humano (HPV) passou a ser recomendada
pela Organização Mundial da Saúde (OMS) após revisão sistemática das evidências
científicas. O Grupo Consultivo Estratégico de Especialistas em Imunização
(SAGE) concluiu, em 2022, que uma única dose da vacina confere proteção
comparável à de duas doses para meninas de 9 a 14 anos e mulheres de 15 a 20
anos, sendo indicado esquema de duas ou três doses apenas para
imunocomprometidos, como pessoas vivendo com HIV (World Health Organization,
2022). Essa mudança visa ampliar a cobertura vacinal, facilitar a logística de
aplicação e reduzir custos, sem comprometer a eficácia
protetora.
Em
consonância com as recomendações realizadas pela OMS, o Grupo Consultivo
Técnico (GAT) sobre doenças imunopreveníveis da Organização Pan-Americana de
Saúde (OPAS), recomendou em um relatório de 2023, que os países e territórios
das Américas utilizassem o esquema de dose única da vacina contra o HPV, que no
Brasil, conforme já mencionado, foi implementada pelo Ministério da Saúde em
2025.
V. Considerações
Finais
A
trajetória da vacinação no Brasil demonstra que políticas públicas consistentes,
como o PNI, têm capacidade de erradicar doenças graves e consolidar uma cultura
de imunização. Entretanto, a persistente resistência à vacina contra o HPV
revela que barreiras culturais, religiosas e de gênero ainda impactam
negativamente a saúde pública, sobretudo no que se refere à imunização das
meninas. Essas resistências estão frequentemente ancoradas em valores
conservadores e em uma percepção moralizante da sexualidade feminina, na qual o
corpo da menina é visto como patrimônio da família e da comunidade, devendo ser
resguardado, enquanto a sexualidade masculina tende a ser naturalizada.
Esse
cenário reflete uma lógica de vigilância moral que associa, de forma
equivocada, a vacinação ao incentivo à vida sexual precoce, reforçando desigualdades
de gênero e perpetuando estereótipos. Apesar dos esforços do PNI, persistem
lacunas na cobertura vacinal, agravadas pela disseminação de desinformação e de
teorias conspiratórias que questionam a segurança da vacina. Superar essas
barreiras exige uma abordagem intersetorial que una saúde, educação e
comunicação, considerando não apenas os dados epidemiológicos, mas também os
significados simbólicos que influenciam as decisões familiares.
Para
avançar, torna-se imprescindível combater a desinformação com campanhas claras,
acessíveis e culturalmente sensíveis, promover a
educação sexual de forma emancipatória e reforçar a vacinação no ambiente
escolar. Políticas públicas integradas e inclusivas, que dialoguem com a
diversidade social e de gênero, são essenciais para que as famílias compreendam
a imunização como um ato de cuidado e prevenção, e não
de estímulo à sexualidade. Somente com ações articuladas e sensíveis às
desigualdades estruturais será possível atingir as metas de cobertura vacinal,
reduzir as disparidades de gênero e garantir o direito à saúde como um bem
coletivo e inegociável.
Além
disso, como a resistência vacinal contra o HPV não se limita a uma questão
individual de escolha, mas reflete processos históricos e estruturais que
envolvem desigualdade de gênero, fragilidade das políticas de educação em saúde
e insuficiência de estratégias comunicacionais, as políticas públicas que
pretendam ampliar a cobertura vacinal devem considerar não apenas a oferta do
imunizante, mas também a criação de ambientes sociais e institucionais capazes
de acolher dúvidas, reduzir estigmas e desconstruir mitos enraizados no
imaginário coletivo. Isso implica fortalecer a formação continuada de
profissionais da saúde e da educação, para que atuem como mediadores qualificados
entre ciência e sociedade.
Por
fim, a experiência brasileira com a vacinação contra o
HPV revela que o sucesso das políticas de imunização depende de um esforço
coletivo, sustentado pela integração entre Estado, comunidade e famílias. É
necessário que o direito à saúde seja garantido não apenas em sua dimensão
formal, mas também em sua efetivação cotidiana, promovendo igualdade de gênero,
confiança na ciência e responsabilidade social. Somente assim será possível
consolidar uma cultura de prevenção que não se restrinja à erradicação de
doenças, mas que contribua para a construção de uma
sociedade mais consciente de seus direitos.
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[1] Doutora em Direito. Possui estágio Pós-doutoral em Direito pela Università degli Studi "G. d'Annunzio" - Chieti – Pescara. Professora do Programa de Pós-Graduação em Direito - Mestrado e Doutorado em Direitos Humanos – da UNIJUI. E-mail: joice.nielsson@unijui.edu.br. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3808-1064.
[2] Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Direitos
Humanos da UNIJUÍ, bolsista PROSUC/CAPES. Graduada em Direito pelo CESCAGE e em
História pela UENP. E-mail: julia_qtg@hotmail.com.